Índia desafia a lógica bilionária da exploração espacial e vira estudo de caso global
Artigo publicado na Proceedings of the National Academy of Sciences analisa como missões de baixo custo da Indian Space Research Organisation ampliam acesso ao espaço e pressionam modelos tradicionais

Com o pouso da Chandrayaan-3 em 2023, a Índia tornou-se a primeira nação a realizar um pouso suave próximo ao polo sul da Lua e apenas o quarto país a realizar um pouso suave na Lua. Crédito da imagem: Organização Indiana de Pesquisa Espacial.
Por décadas, a exploração espacial foi sinônimo de orçamentos bilionários, programas de décadas e riscos políticos elevados. Mas um novo artigo publicado na revista científica Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS) sustenta que essa lógica não é a única possível — e que a Índia vem demonstrando isso na prática.
No estudo intitulado “Democratizing space: India’s frugal space innovation provides key lessons for emerging nations”, pesquisadores liderados por Luisa Corrado, da Universidade de Roma Tor Vergata, e colegas da Universidade de Cambridge argumentam que a chamada “inovação frugal” da agência espacial indiana oferece um modelo alternativo para países emergentes — e até para potências espaciais tradicionais.
“O ponto não é substituir grandes programas”, escrevem os autores. “É estruturar missões com escopo disciplinado, reutilização modular e decisões explícitas sobre risco e custo.”
A Lua por US$ 75 milhões
Em 2023, a missão Chandrayaan-3 pousou próximo ao polo sul da Lua com um orçamento de cerca de US$ 75 milhões. A façanha tornou a Índia o primeiro país a realizar um pouso suave naquela região e apenas o quarto a realizar um pouso lunar controlado.
Uma década antes, a missão Mars Orbiter Mission — também chamada Mangalyaan — alcançou a órbita de Marte por aproximadamente US$ 74 milhões, cerca de um sétimo do custo da missão MAVEN da NASA, segundo dados citados no artigo.
Os autores fazem questão de sublinhar que a comparação não implica ineficiência de programas mais caros, como o Artemis program, cujo custo acumulado projetado até 2025 gira em torno de US$ 93 bilhões. “Trata-se de classes de missão diferentes”, observam. Enquanto Artemis envolve voos tripulados e infraestrutura permanente, as missões indianas analisadas são robóticas e com objetivos altamente delimitados.
Engenharia com escopo disciplinado
O estudo define “inovação frugal” como a prática de delimitar rigorosamente os objetivos da missão; reutilizar tecnologias já testadas; aceitar explicitamente certos níveis de risco e reduzir a complexidade de integração.
No caso do Mangalyaan, por exemplo, a equipe reutilizou extensivamente o projeto da sonda lunar Chandrayaan-1 e optou por um único motor versátil a combustível líquido em vez de múltiplas unidades especializadas — reduzindo peças, integração e custo.
“Quando os objetivos são deliberadamente estreitos, a verificação e a garantia podem ser dimensionadas ao risco real da missão, e não herdadas automaticamente do padrão de missões emblemáticas”, escrevem os autores.
Aprender voando
Outro pilar do modelo indiano é a lógica de “escada de capacidades”: dividir metas complexas em missões sequenciais menores.
Chandrayaan-1 consolidou a capacidade orbital lunar.
Chandrayaan-2 testou o conjunto orbiter–lander–rover.
Chandrayaan-3 concentrou-se exclusivamente em demonstrar pouso seguro e mobilidade na superfície.
Segundo o artigo, essa decomposição reduz o risco sistêmico e distribui o aprendizado ao longo do tempo, evitando o modelo “tudo ou nada”.
Colaboração internacional e serviços comerciais
A estratégia frugal não impediu parcerias com agências consolidadas. A missão NISAR, lançada em 2025 em cooperação com a NASA, combina instrumentos científicos avançados com plataformas e serviços de lançamento mais econômicos.
O artigo argumenta que esse modelo de aquisição de serviços — já adotado também por iniciativas comerciais da NASA — pode ampliar o acesso ao espaço para universidades, startups e países de renda média.
Dados citados no estudo indicam que a Índia lançou 424 satélites estrangeiros até 2023, evidenciando o crescimento do mercado de acesso orbital a custos mais baixos.
Implicações para países emergentes
Para os autores, o impacto é particularmente relevante para nações que desejam entrar no setor espacial sem comprometer grandes fatias do orçamento público.

Veículo Lançador de Satélites Geoestacionários Mark-III (GSLV Mk III)
Satélites de observação da Terra — mesmo de menor custo — podem sustentar aplicações críticas como monitoramento de secas, enchentes e agricultura de precisão, contribuindo para metas de desenvolvimento sustentável.
“Missões que custam dezenas de milhões, em vez de bilhões, tornam o investimento espacial politicamente e economicamente viável para mais governos”, afirmam.
Os limites da frugalidade
O artigo também reconhece limites claros. Missões tripuladas, grandes telescópios espaciais e projetos de retorno de amostras exigem investimentos elevados e níveis máximos de redundância e verificação.
A própria Índia está ampliando seu orçamento para programas mais ambiciosos, como a missão tripulada Gaganyaan.
Além disso, os autores alertam para um desafio crescente: a congestão orbital. O aumento do número de satélites eleva riscos de colisão e exige sistemas robustos de gerenciamento de tráfego espacial, sob coordenação de organismos internacionais como o Escritório das Nações Unidas para Assuntos do Espaço Exterior.
Complemento, não substituição
A conclusão do estudo é inequívoca: missões frugais não substituem projetos emblemáticos — mas os complementam.
“Frugalidade amplia o acesso e diversifica o ecossistema espacial”, escrevem os pesquisadores. “Quando aplicada de forma seletiva e disciplinada, pode entregar progresso comprovado em voo mesmo sob orçamentos restritos.”
Em um momento de restrições fiscais globais e crescente competição tecnológica, a lição indiana pode ecoar além de Nova Déli — e reconfigurar o debate sobre quem pode, de fato, chegar ao espaço.
Referência
L.Corrado, S.Gupta-Rawal, P.Kattuman, & J.Prabhu, Democratizando o espaço: a inovação espacial frugal da Índia fornece lições importantes para nações emergentes, Proc. Natl. Acad. Sci. USA 123 (8) e 2514657123, https://doi.org/10.1073/pnas.2514657123 (2026).